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Jirsa Dublin semicurvo – Novo
janeiro 3, 2012 por Cachimbos Briarte
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O TESOURO – por Nelson Lopes de Paula
O TESOURO
Em meados de 1946, logo após o término da grande guerra, o mundo estava se recuperando da maior catástrofe humana.
A fina flor da juventude havia se esvaído nos campos de batalha.
Pais, irmãos, filhos pelo mundo afora choravam as suas perdas amargas.
Dirigentes de todas as nações estavam assustados diante da destruição ocorrida. Agora era necessário reconstruir o mundo. O susto inicial dera lugar a um sentimento de perda imensurável.
Do Ocidente ao Oriente a pobreza atingia a todos. Os recursos que foram dispensados durante a guerra tornou o planeta uma morada de infelizes e pobres humanos.
Era o início da reconstrução do Lar de todos nós, tarefa difícil que vem se arrastando até hoje.
Mas, naquela época de tanta miséria humana havia também o fantasma da miséria física.
Os alimentos tornaram-se caros e difíceis, muitos deles estavam “racionados”, por exemplo: o açúcar.
Eu cheguei neste mundo conturbado no final de 1.942, portanto em época de carência.
Meus pais, assim como muitos pais daquela época, usavam de um estratagema para adoçar as minhas mamadeiras. Eles compravam na venda esquina os mantimentos para nossa casa com muitas dificuldades, e lá havia um determinado caramelo que depois de triturado substituía o precioso açúcar.
Meu pai possuía uma pequena alfaiataria; entretanto naquela época quase ninguém tinha meios para comprar tecidos e fazer novas roupas.
Muitos dias meu pai ia até o açougueiro, um conhecido dos tempos do Colégio Marista, e comprava cerca de cem gramas de carne para minha mãe enriquecer as minhas sopinhas.
A vida não estava fácil para ninguém.
Meu pai estava sem serviços a mais de um mês. Grande parte do que era posto em nossa mesa vinha de uma horta que meu avô cultivava. Meu avô, Espanhol, segundo ele “de Espanha”, era um excelente verdureiro.
Nesse dia meu pai não tinha como comprar o pequeno pedaço de carne para minha sopinha.
Naquela época, a antiga Mogiana com seus trens que iam e vinham de Campinas atraia muita gente que gostava de assistir a partida daqueles vagões enfeitados com cortinas bordadas e alvas como algodão.
Meu pai saiu para andar sem destino até que se viu na estação para assistir a partida do trem das 15h.
Após a partida do trem, meu pai se retirava da estação quando percebeu na escadaria que dava para o exterior uma carteira muito grande, quase uma bolsa.
Papai apanhou a carteira, observou pelas redondezas e não percebeu nenhuma pessoa por ali. Resolve olhar para dentro da carteira. Havia uma grande quantidade de grandes notas. Eram as famosas notas de “Um Conto de Reis”. Segundo ele, Um Conto de Reis naquela época compraria facilmente uma ou duas casas.
Me pai perdeu o fôlego. Estava rico, muito rico.
Calmamente desabotoou sua camisa, colocou a carteira por dentro, abotoou de novo e se dirigiu para um ponto de ônibus que havia ali. Esses ônibus corriam da estação até o centro da cidade, perto da alfaiataria.
Seu coração estava disparado, quase sem fôlego aguardando ansioso a chegada do coletivo.
De repente, ele olhou para o interior daquela praça, e lá no meio entre algumas árvores um casal de velhos parecia que estava chorando.
Meu pai aproximou-se e percebeu que se tratava de um casal de italianos. Pelas malas dava para ver que estavam preparados para uma grande viagem.
Meu pai indagou o porquê da aflição. O velho italiano explicou que eles estavam indo para a Itália. Haviam vendido um sítio e juntaram todo o dinheiro que podiam para socorrer parentes em situação muita crítica na Velha Itália de “pós guerra”, mas, haviam perdido uma carteira com todo o dinheiro amealhado.
Papai abriu a sua camisa, retirou dali a carteira e apresentou-a aos velhos italianos.
A reação dos imigrantes foi tão impressionante que até o fim de seus dias meu pai não conseguia descrever com precisão a emoção daquele momento.
Meu pai então orientou aqueles heróis anônimos para distribuir o dinheiro pelas malas para não correr o risco de perder tudo de uma só vez.
Voltando para o ponto de ônibus meu velho com os olhos cheios de lágrimas se lembrou de que ainda não havia comprado o naco de carne para o seu pequeno que em casa aguardava a sua volta.
Naquele dia na minha sopinha não teve carne... Mas ganhei um tesouro para toda a minha vida... O exemplo de honestidade que sempre norteou a vida do meu velho.Nelson Lopes de Paula
Um cachimbeiro de verdadeAfinidades
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